Malévola
A experiência de assistir a Malévola é bastante curiosa. Por um lado, esta ainda é a história bem conhecida da Bela Adormecida, com os mesmos elementos consagrados (maldição da vilã, dedo espetado, sono da princesa, beijo salvador). Por outro lado, a fábula nunca tinha sido vista dessa maneira, com um festival de imagens digitais, efeitos sonoros e espetáculo pirotécnico. Esta é mesmo uma versão moderna da história, como anunciaram os produtores, mas a forma está mais modernizada do que o conteúdo.
Algumas cenas, como a muralha de espinhos e a levitação da princesa são realmente impressionantes. Outras cenas, como os planos aéreos da floresta e dos seres coloridos, são de fato grandiosos, mas não muito diferentes da fauna e flora fantásticas já vistas em Oz, Mágico e Poderoso, Alice no País das Maravilhas e Avatar, por exemplo. Talvez fique a sensação incômoda de assistir a uma produção em que 90% das cenas foi filmada sobre uma tela verde. Mas é verdade que muitos espectadores vão enxergar no excesso visual um banquete de luzes e cores digno do investimento feito no ingresso (sobretudo em 3D).
De resto, a moral por trás da Bela Adormecida permanece a mesma, com poucas alterações significativas. Uma única mudança notável é a hesitação do príncipe em beijar a princesa adormecida, por tê-la visto apenas vez. A prudência em relação ao romance e a recusa do amor à primeira vista também estavam presentes em outro filme contemporâneo da Disney, Frozen - Uma Aventura Congelante, e parece representar o discurso politicamente correto destinado às jovens garotas. Quanto a Malévola, nem é preciso dizer que a personagem não é fundamentalmente malvada - ela nasceu pura e alegre, como parece ser o caso de todas as crianças neste mundo mágico, mas ficou amargurada com o fim de uma história de amor. "Malévola", antes de ser um adjetivo depreciativo, é o nome próprio da protagonista, adquirido muito antes de se transformar em feiticeira má.
No que diz respeito ao elenco, é difícil prestar atenção em qualquer outro nome além de Angelina Jolie. A atriz e produtora está muito à vontade no papel, transitando facilmente entre a ironia, a vilania e o carinho por Aurora. Jolie sabe como empregar muito bem cada tom de voz, cada expressão, dando a impressão de que a estrela é tão bem treinada na arte dramática quanto na arte de posar para fotógrafos, mostrando sua beleza e seus melhores ângulos (e as duas habilidades são exaustivamente solicitadas no filme). Já a promissora Elle Fanning faz o que pode com a rasa personagem da princesa pura e ingênua, capaz de observar uma mulher vestida de preto, com chifres imensos, e confundi-la com sua fada madrinha.
Um exemplo externo ao filme pode ajudar a compreender melhor os seus valores. Recentemente, o diretor Colin Trevorrow defendeu a sua continuação de Jurassic Park, contra aqueles que o acusam de "estragar as histórias da nossa infância". Segundo ele, não podemos exigir do cinema contemporâneo que corresponda ao padrão de décadas atrás. Afinal, a infância dos adultos já passou, e agora é a vez de criar histórias para uma nova geração de crianças, acostumadas aos vídeos na Internet, os videogames, os celulares e os desenhos animados espetaculares.
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-201429/criticas-adorocinema/
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