Com uma porção de adaptações de livros infantojuvenis chegando aos cinemas – muitas delas pouco impressionantes -, A Culpa é das Estrelas gerava apreensão. Primeiro, por lidar com um tema espinhoso como o câncer na adolescência, e segundo, por escolher duas estrelas em ascensão (Shailene Woodley e Ansel Elgort), algo que poderia ocorrer mais para atrair o público jovem do que realmente pela adequação dos dois ao projeto. Felizmente, o filme supera estes preconceitos e revela-se uma ótima surpresa.
O tom do filme é permeado pela autoparódia como mecanismo de defesa. Hazel (Shailene Woodley) e Gus (Ansel Elgort) brincam com frequência com o fato de ter perdido uma perna, no caso dele, e de ter uma fraca capacidade pulmonar, no caso dela. A comicidade deste projeto é equivalente àquela que tanto agradou os espectadores emIntocáveis, por exemplo, no qual as brincadeiras com a doença e a deficiência eram vistas como uma postura louvável, ao invés das tradicionais autopiedade e vitimização. Hazel e Gus são dois personagens fortes, maduros para a idade que têm, e repletos de perguntas profundas sobre a morte, a vida e o legado que deixarão para seus próximos. Não é nada fácil abordar esses temas com leveza, mas esta obra consegue ser um inesperado feel goodmovie.
Os atores também são impressionantes. Se alguém ainda duvidava do talento de Woodley após Os Descendentes eDivergente, neste projeto ela mostra do que é capaz apenas com o olhar e com poucos gestos. Elgort também está à vontade com as tiradas sarcásticas, compondo um personagem interessante, preso entre a aparência forte e as inseguranças que esconde. Com a sintonia entre os atores, as cenas mais belas do filme acontecem em silêncio, quando os dois se comunicam muito claramente com o olhar – como no primeiro encontro no grupo de apoio. Por isso, o diretor Josh Boone opta por colar a câmera no rosto dos dois sempre que possível, evitando qualquer imagem que possa explorar a doença de ambos. Ou seja, Gus raramente é visto caminhando e mostrando sua perna mecânica, enquanto Hazel não revela os tubos que drenam líquidos de seu pulmão. É uma maneira pudica, mas também respeitosa, de sugerir que aqueles personagens valem menos por suas patologias do que pelos seres humanos que são, e pelas emoções que sentem. Completando o bom elenco, Laura Dern tem um papel pequeno, mas afetuoso, e Willem Dafoe faz uma aparição amarga e potente na trama.
Mesmo assim, A Culpa das Estrelas acaba sendo um projeto muito acima da média em comparação com os dramas normalmente oferecidos ao público adolescente. Os personagens têm complexidade, conseguem alternar entre dúvidas típicas da juventude e questões mais profundas sobre o amor e a morte. Dentro do gênero “melodrama romântico”, Hollywood raramente consegue fazer algo melhor. Sem dúvida, o palavreado simples e direto de John Green para abordar o câncer contribui para atmosfera naturalista e comovente.
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